É frequente encontrar quem opte por um produto cosmético mais caro porque não é testado em animais, quem boicote uma marca de bananas porque a companhia que as cultiva não tem preocupações ambientais ou não pratica o comércio justo. E começa a ser comum os consumidores, que partilham uma posição e querem manifestá-la, juntarem-se em movimentos, como aquele que ainda há pouco foi organizado através da Internet, para um boicote às petrolíferas.
Numa era em que somos constantemente bombardeados com publicidade, em que a nossa felicidade e identidade parecem depender do carro e da casa que compramos, do ginásio e da roupa que escolhemos, em que consumimos muito para além das nossas necessidades básicas; numa altura em que, mesmo em política, é comum ver os partidos tratarem os eleitores como consumidores, recorrendo ao marketing político devedor de técnicas da publicidade comercial, é natural que os indivíduos recusem o papel passivo que lhes cabe enquanto consumidores, assumindo o de cidadãos em exercício de direitos e deveres. O papel de consumidor é por natureza passivo, recusá-lo significa assumir o de cidadão.
Mas, apesar de muita gente sentir que tem capacidade para usar o poder inerente ao acto de consumir, porque se assiste, ao mesmo tempo, a uma recusa de qualquer outro tipo de intervenção cívica? Porque é tão frequente ouvir as pessoas dizerem que não vale a pena votar, ou pertencer a um partido político? De certo modo é como se cada vez mais pessoas se resumissem, e quisessem resumir a sua vida, àquilo que se relaciona com o consumo.
É fundamental que uma parte do esforço e consciência individual que começa hoje a ser canalizada para os direitos do consumidor se estenda a outras áreas, sob pena de muitos dos direitos cívicos que temos hoje, conquistados há trinta e quatro anos com grande dificuldade, não passarem de letra morta. E para isso basta que nos confinemos ao papel de consumidores-cidadãos.
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