Primeiro pega-se num tema com apelo emocional, qualquer coisa que capte os medos e fobias mais elementares daqueles a quem se vai dirigir. Por exemplo, a segurança. É um daqueles assuntos que desperta imediatamente terror em toda a gente.
Depois de escolhido o tema, vem o tratamento a dar-lhe. Imaginemos que eu escrevia uma frase para pôr num outdoor, qualquer coisa como: “Portugal é um dos países mais seguros das Europa.” Ora, esta frase, apesar do tema e de ser factual, não apela a nenhum medo, portanto não serve.
Mas a frase não precisa de ser factual, pode sempre recorrer-se a opiniões. Têm é que ser disfarçadas. E como é que se faz isso? Por exemplo, dou a minha opinião enquanto formulo uma pergunta. Imaginemos uma coisa deste género: "Porque é que os criminosos têm mais direitos que os polícias?”. Com esta pergunta o leitor do meu outdoor, enquanto pensa na resposta, é levado a esquecer-se que ela, não só não corresponde a um facto, como é uma opinião capciosa.
E chegamos à terceira parte da receita. Note-se que a pergunta é uma generalização vaga. Não define se os criminosos são os assaltantes de bancos, ou aqueles que excedem o limite de velocidade. Depois, mistura os conceitos de suspeito e culpado. Assim, todos os suspeitos são criminosos. Por fim, divide o mundo entre bons e maus. Policias e ladrões, respectivamente. E quem é que tem dúvidas onde se deve posicionar nesse mundo? Ninguém. Se se acrescentar que os bons têm menos direitos que os maus, fazendo um apelo ao sentido de justiça do nosso leitor, então acrescenta-se ainda mais apelo emocional.
Finalmente (e este é o detalhe sem o qual a receita não funciona), a frase tem de ter implícita a ideia de que, quem quer que a proferiu, se preocupa com essa injustiça gritante de os bons, os polícias, terem menos direitos que os maus, os criminosos, se inquieta de tal maneira com um mundo tão distorcido, que não contém o seu grito de dor, que a pergunta traduz, e isso claro, provoca a empatia do leitor.
A verdade é que não sou a autora desta frase, confesso que foi o CDS-PP a concebê-la. Ela faz parte de um conjunto de afirmações, espalhadas por outdoors, que segue esta receita que descrevi, e que pode ser resumida da seguinte forma: emoção em vez de razão, medo em vez de ideias, e confusão em vez de rigor. Um bom exemplo de demagogia.