quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Navegar à vista.

Se vamos votar num partido com a expectativa de que poderá vir a governar, e, no caso do PS, essa é uma expectativa legítima, é forçoso saber como pretende fazê-lo. Vem isto a propósito do programa eleitoral que o Partido Socialista apresentou. Claro que poucos o leram, e eu devo confessar que, mesmo sendo militante, não o fiz. Mas, ainda assim, as ideias que contém chegam até mim, quer através de notícias, quer através do debate que se inicia com a sua apresentação. Assim, antes das eleições, posso fazer uma aferição, admito que menos profunda do que devia, das propostas no programa, e depois votar em consciência.

Ninguém duvida que a política se está a transformar num campo de batalha do marketing que substitui ideologias, e de indivíduos que se sobrepõem a ideias. Quantos eleitores não votam num candidato apenas porque simpatizam, de forma irracional, com a sua cara? Ou escolhem um partido como se se tratasse de um clube de futebol? Em qualquer dos casos, muitos eleitores votam, por opção própria, num candidato ou num partido ignorando o que estes defendem. Parece-me arriscado, mas julgo que cabe a cada um decidir. Imaginemos agora que um eleitor quer escolher, com base em propostas concretas, em quem votar, mas os partidos não têm ou não revelam essas propostas? Nesse caso o problema é mais grave.

Pode-se criticar o programa eleitoral do PS, mas seria injusto esquecer que, o que é verdadeiramente criticável, é não apresentar ideias que possam ser avaliadas, e aí, a afirmação de Manuela Ferreira Leite de que o seu programa eleitoral, inexistente, se vai limitar a um conjunto de linhas gerais, merece uma sanção. É assim que se abre caminho ao marketing político que substitui as ideologias, e escancara a porta ao culto do líder que se sobrepõe às ideias. Em qualquer dos casos a governação fica refém do curto prazo. Mas suponho que devemos elogiar a coerência de Manuela Ferreira Leite, é que ela pretende fazer no governo, se a deixarmos, o mesmo que tem feito na oposição: navegar à vista.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Politicamente Correcto

Nos dias que correm, à falta de argumentos mais substantivos, é frequente ser-se acusado de: “politicamente correcto”. Quer com isso o acusador afirmar que o acusado, ironia das ironias, recorre a argumentos sem substância. Por outras palavras, quando se declara que alguém é politicamente correcto, porque, por exemplo, defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo, está a dizer-se que os argumentos ou ideias que defende valem apenas pelo facto de aderirem, sem reflexão, aos estereótipos dominantes. Sendo que, estes estereótipos, são normalmente ideias vazias e sem sentido.

Antes de começar esta crónica tinha uma ideia acerca da origem e história da expressão “politicamente correcto” que, à medida que li algumas coisas, acabou por ser questionada. Pensava eu, ignorância das ignorâncias, que surgira nos anos noventa do século passado para se referir às tentativas americanas de normalização da linguagem, que acabaram em excessos ridículos. Na prática, verifiquei que está associada a esforços de controlo de linguagem, desde que, na primeira guerra mundial, o ministro de informação, de então, tentou certificar-se que se dizia apenas o que, e nos termos que, interessavam ao estado Britânico. Para não alongar muito esta crónica, refiro apenas outro dos usos, posteriores, da expressão. Ela está também associada ao regime soviético e depois chinês, de Mao Tse Tung, que queriam, mais uma vez, garantir uma ortodoxia de pensamento, logo de expressão, e por isso decidiam o quê, e como, devia ser dito.

Com esta, espero que não muito fastidiosa, digressão histórica, quis tentar pôr em perspectiva uma locução, que passou a ser usada com muita frequência e pouca reflexão. Quando alguém defende o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, levantam-se logo vozes em uníssono, afirmando a correcção política desta ideia, como se, por isso, fosse vazia e, portanto, não merecesse discussão. Assim, quando discordo dos argumentos de alguém, ou das ideias que defende, carimbo-as de “politicamente correctas” para não ter que as debater. E há uma palavra que define essa acção: censura. Ou seja, a expressão “politicamente correcto” é usada ainda hoje com o significado com que surgiu, como forma de censurar as palavras, logo as ideias, de alguém.

Ora, as ideias devem ser medidas por elas mesmas, depois de discutidas e analisadas, e não podem estar à mercê de rótulos, que censuram ou branqueiam a realidade. Por isso, ser homofóbico ou intolerante, não é ser politicamente incorrecto, é ser homofóbico e intolerante. E, defender a liberdade e o respeito pela diferença, não é ser politicamente correcto, é defender a liberdade e o respeito pela diferença. É que, entre tantos rótulos, às vezes tendemos a esquecê-lo. Se calhar, para que eu própria não o esquecesse, escrevi esta crónica.