sábado, 16 de novembro de 2013
sábado, 17 de outubro de 2009
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
A receita:
Primeiro pega-se num tema com apelo emocional, qualquer coisa que capte os medos e fobias mais elementares daqueles a quem se vai dirigir. Por exemplo, a segurança. É um daqueles assuntos que desperta imediatamente terror em toda a gente.
Depois de escolhido o tema, vem o tratamento a dar-lhe. Imaginemos que eu escrevia uma frase para pôr num outdoor, qualquer coisa como: “Portugal é um dos países mais seguros das Europa.” Ora, esta frase, apesar do tema e de ser factual, não apela a nenhum medo, portanto não serve.
Mas a frase não precisa de ser factual, pode sempre recorrer-se a opiniões. Têm é que ser disfarçadas. E como é que se faz isso? Por exemplo, dou a minha opinião enquanto formulo uma pergunta. Imaginemos uma coisa deste género: "Porque é que os criminosos têm mais direitos que os polícias?”. Com esta pergunta o leitor do meu outdoor, enquanto pensa na resposta, é levado a esquecer-se que ela, não só não corresponde a um facto, como é uma opinião capciosa.
E chegamos à terceira parte da receita. Note-se que a pergunta é uma generalização vaga. Não define se os criminosos são os assaltantes de bancos, ou aqueles que excedem o limite de velocidade. Depois, mistura os conceitos de suspeito e culpado. Assim, todos os suspeitos são criminosos. Por fim, divide o mundo entre bons e maus. Policias e ladrões, respectivamente. E quem é que tem dúvidas onde se deve posicionar nesse mundo? Ninguém. Se se acrescentar que os bons têm menos direitos que os maus, fazendo um apelo ao sentido de justiça do nosso leitor, então acrescenta-se ainda mais apelo emocional.
Finalmente (e este é o detalhe sem o qual a receita não funciona), a frase tem de ter implícita a ideia de que, quem quer que a proferiu, se preocupa com essa injustiça gritante de os bons, os polícias, terem menos direitos que os maus, os criminosos, se inquieta de tal maneira com um mundo tão distorcido, que não contém o seu grito de dor, que a pergunta traduz, e isso claro, provoca a empatia do leitor.
A verdade é que não sou a autora desta frase, confesso que foi o CDS-PP a concebê-la. Ela faz parte de um conjunto de afirmações, espalhadas por outdoors, que segue esta receita que descrevi, e que pode ser resumida da seguinte forma: emoção em vez de razão, medo em vez de ideias, e confusão em vez de rigor. Um bom exemplo de demagogia.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Navegar à vista.
Ninguém duvida que a política se está a transformar num campo de batalha do marketing que substitui ideologias, e de indivíduos que se sobrepõem a ideias. Quantos eleitores não votam num candidato apenas porque simpatizam, de forma irracional, com a sua cara? Ou escolhem um partido como se se tratasse de um clube de futebol? Em qualquer dos casos, muitos eleitores votam, por opção própria, num candidato ou num partido ignorando o que estes defendem. Parece-me arriscado, mas julgo que cabe a cada um decidir. Imaginemos agora que um eleitor quer escolher, com base em propostas concretas, em quem votar, mas os partidos não têm ou não revelam essas propostas? Nesse caso o problema é mais grave.
Pode-se criticar o programa eleitoral do PS, mas seria injusto esquecer que, o que é verdadeiramente criticável, é não apresentar ideias que possam ser avaliadas, e aí, a afirmação de Manuela Ferreira Leite de que o seu programa eleitoral, inexistente, se vai limitar a um conjunto de linhas gerais, merece uma sanção. É assim que se abre caminho ao marketing político que substitui as ideologias, e escancara a porta ao culto do líder que se sobrepõe às ideias. Em qualquer dos casos a governação fica refém do curto prazo. Mas suponho que devemos elogiar a coerência de Manuela Ferreira Leite, é que ela pretende fazer no governo, se a deixarmos, o mesmo que tem feito na oposição: navegar à vista.
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Politicamente Correcto
Nos dias que correm, à falta de argumentos mais substantivos, é frequente ser-se acusado de: “politicamente correcto”. Quer com isso o acusador afirmar que o acusado, ironia das ironias, recorre a argumentos sem substância. Por outras palavras, quando se declara que alguém é politicamente correcto, porque, por exemplo, defende o casamento entre pessoas do mesmo sexo, está a dizer-se que os argumentos ou ideias que defende valem apenas pelo facto de aderirem, sem reflexão, aos estereótipos dominantes. Sendo que, estes estereótipos, são normalmente ideias vazias e sem sentido.
Antes de começar esta crónica tinha uma ideia acerca da origem e história da expressão “politicamente correcto” que, à medida que li algumas coisas, acabou por ser questionada. Pensava eu, ignorância das ignorâncias, que surgira nos anos noventa do século passado para se referir às tentativas americanas de normalização da linguagem, que acabaram em excessos ridículos. Na prática, verifiquei que está associada a esforços de controlo de linguagem, desde que, na primeira guerra mundial, o ministro de informação, de então, tentou certificar-se que se dizia apenas o que, e nos termos que, interessavam ao estado Britânico. Para não alongar muito esta crónica, refiro apenas outro dos usos, posteriores, da expressão. Ela está também associada ao regime soviético e depois chinês, de Mao Tse Tung, que queriam, mais uma vez, garantir uma ortodoxia de pensamento, logo de expressão, e por isso decidiam o quê, e como, devia ser dito.
Com esta, espero que não muito fastidiosa, digressão histórica, quis tentar pôr em perspectiva uma locução, que passou a ser usada com muita frequência e pouca reflexão. Quando alguém defende o direito ao casamento entre pessoas do mesmo sexo, levantam-se logo vozes em uníssono, afirmando a correcção política desta ideia, como se, por isso, fosse vazia e, portanto, não merecesse discussão. Assim, quando discordo dos argumentos de alguém, ou das ideias que defende, carimbo-as de “politicamente correctas” para não ter que as debater. E há uma palavra que define essa acção: censura. Ou seja, a expressão “politicamente correcto” é usada ainda hoje com o significado com que surgiu, como forma de censurar as palavras, logo as ideias, de alguém.
Ora, as ideias devem ser medidas por elas mesmas, depois de discutidas e analisadas, e não podem estar à mercê de rótulos, que censuram ou branqueiam a realidade. Por isso, ser homofóbico ou intolerante, não é ser politicamente incorrecto, é ser homofóbico e intolerante. E, defender a liberdade e o respeito pela diferença, não é ser politicamente correcto, é defender a liberdade e o respeito pela diferença. É que, entre tantos rótulos, às vezes tendemos a esquecê-lo. Se calhar, para que eu própria não o esquecesse, escrevi esta crónica.
terça-feira, 21 de julho de 2009
A propósito do 25 de Abril
Numa era em que somos constantemente bombardeados com publicidade, em que a nossa felicidade e identidade parecem depender do carro e da casa que compramos, do ginásio e da roupa que escolhemos, em que consumimos muito para além das nossas necessidades básicas; numa altura em que, mesmo em política, é comum ver os partidos tratarem os eleitores como consumidores, recorrendo ao marketing político devedor de técnicas da publicidade comercial, é natural que os indivíduos recusem o papel passivo que lhes cabe enquanto consumidores, assumindo o de cidadãos em exercício de direitos e deveres. O papel de consumidor é por natureza passivo, recusá-lo significa assumir o de cidadão.
Mas, apesar de muita gente sentir que tem capacidade para usar o poder inerente ao acto de consumir, porque se assiste, ao mesmo tempo, a uma recusa de qualquer outro tipo de intervenção cívica? Porque é tão frequente ouvir as pessoas dizerem que não vale a pena votar, ou pertencer a um partido político? De certo modo é como se cada vez mais pessoas se resumissem, e quisessem resumir a sua vida, àquilo que se relaciona com o consumo.
É fundamental que uma parte do esforço e consciência individual que começa hoje a ser canalizada para os direitos do consumidor se estenda a outras áreas, sob pena de muitos dos direitos cívicos que temos hoje, conquistados há trinta e quatro anos com grande dificuldade, não passarem de letra morta. E para isso basta que nos confinemos ao papel de consumidores-cidadãos.
A dignidade do Parlamento
Fiquei surpreendida com o gesto que acabou por transformar Manuel Pinho em ex-ministro da economia. E compreendo o sentimento de indignação e repúdio que os parlamentares e outras figuras públicas, da política e não só, têm demonstrado desde então.
Dito isto, gostaria de chamar a atenção para a desproporção entre a gravidade do seu gesto, inequívoca, e a cobertura noticiosa que mereceu. Ora a pergunta que faço é, e se as câmaras não tivessem apanhado o gesto de Pinho em directo? Provavelmente teríamos na mesma um comportamento reprovável, que mereceria repúdio, mas duvido que fosse amplificado da maneira que foi, eclipsando por completo o debate do estado da nação e todo a discussão política subsequente em Portugal.
Julgo que devíamos reflectir sobre a forma como o tratamento jornalístico do caso Manuel Pinho permitiu que as questões sobre as obras públicas, o apoio às pequenas e médias empresas ou os 132 trabalhadores das minas de Aljustrel, para dar apenas alguns exemplos, passassem a detalhes pouco importantes do estado da nação. O gesto infeliz de Manuel Pinho mereceu destaque e análise em todos os jornais e televisão, como se mais nada se tivesse passado no país. De tal maneira que todo o seu trabalho, como ministro da economia, com o qual se pode legitimamente discordar, passou a ser julgado por apenas dois segundos no parlamento, o que me parece de uma grande injustiça.
Mas pior ainda, o que estes acontecimentos mostram é um grande número de pessoas pronto a fixar-se no acessório, por mais relevante que seja, para esquecer o essencial. Ora, depois de ter ouvido tantos falar no atentado à dignidade do parlamento cometido por Pinho, gostaria de dizer que, o atentado que me incomoda verdadeiramente, não é o que decorre de excessos de linguagem, verbais ou outros, é a facilidade com que se ignoram os problemas do país, essa sim, a verdadeira ofensa à dignidade do parlamento.