terça-feira, 21 de julho de 2009

A propósito do 25 de Abril

É frequente encontrar quem opte por um produto cosmético mais caro porque não é testado em animais, quem boicote uma marca de bananas porque a companhia que as cultiva não tem preocupações ambientais ou não pratica o comércio justo. E começa a ser comum os consumidores, que partilham uma posição e querem manifestá-la, juntarem-se em movimentos, como aquele que ainda há pouco foi organizado através da Internet, para um boicote às petrolíferas.

Numa era em que somos constantemente bombardeados com publicidade, em que a nossa felicidade e identidade parecem depender do carro e da casa que compramos, do ginásio e da roupa que escolhemos, em que consumimos muito para além das nossas necessidades básicas; numa altura em que, mesmo em política, é comum ver os partidos tratarem os eleitores como consumidores, recorrendo ao marketing político devedor de técnicas da publicidade comercial, é natural que os indivíduos recusem o papel passivo que lhes cabe enquanto consumidores, assumindo o de cidadãos em exercício de direitos e deveres. O papel de consumidor é por natureza passivo, recusá-lo significa assumir o de cidadão.

Mas, apesar de muita gente sentir que tem capacidade para usar o poder inerente ao acto de consumir, porque se assiste, ao mesmo tempo, a uma recusa de qualquer outro tipo de intervenção cívica? Porque é tão frequente ouvir as pessoas dizerem que não vale a pena votar, ou pertencer a um partido político? De certo modo é como se cada vez mais pessoas se resumissem, e quisessem resumir a sua vida, àquilo que se relaciona com o consumo.

É fundamental que uma parte do esforço e consciência individual que começa hoje a ser canalizada para os direitos do consumidor se estenda a outras áreas, sob pena de muitos dos direitos cívicos que temos hoje, conquistados há trinta e quatro anos com grande dificuldade, não passarem de letra morta. E para isso basta que nos confinemos ao papel de consumidores-cidadãos.

A dignidade do Parlamento


Fiquei surpreendida com o gesto que acabou por transformar Manuel Pinho em ex-ministro da economia. E compreendo o sentimento de indignação e repúdio que os parlamentares e outras figuras públicas, da política e não só, têm demonstrado desde então.

Dito isto, gostaria de chamar a atenção para a desproporção entre a gravidade do seu gesto, inequívoca, e a cobertura noticiosa que mereceu. Ora a pergunta que faço é, e se as câmaras não tivessem apanhado o gesto de Pinho em directo? Provavelmente teríamos na mesma um comportamento reprovável, que mereceria repúdio, mas duvido que fosse amplificado da maneira que foi, eclipsando por completo o debate do estado da nação e todo a discussão política subsequente em Portugal.

Julgo que devíamos reflectir sobre a forma como o tratamento jornalístico do caso Manuel Pinho permitiu que as questões sobre as obras públicas, o apoio às pequenas e médias empresas ou os 132 trabalhadores das minas de Aljustrel, para dar apenas alguns exemplos, passassem a detalhes pouco importantes do estado da nação. O gesto infeliz de Manuel Pinho mereceu destaque e análise em todos os jornais e televisão, como se mais nada se tivesse passado no país. De tal maneira que todo o seu trabalho, como ministro da economia, com o qual se pode legitimamente discordar, passou a ser julgado por apenas dois segundos no parlamento, o que me parece de uma grande injustiça.

Mas pior ainda, o que estes acontecimentos mostram é um grande número de pessoas pronto a fixar-se no acessório, por mais relevante que seja, para esquecer o essencial. Ora, depois de ter ouvido tantos falar no atentado à dignidade do parlamento cometido por Pinho, gostaria de dizer que, o atentado que me incomoda verdadeiramente, não é o que decorre de excessos de linguagem, verbais ou outros, é a facilidade com que se ignoram os problemas do país, essa sim, a verdadeira ofensa à dignidade do parlamento.

Pirro


Pirro foi um rei Grego que se opôs aos Romanos e que acabaria por ficar para a história por causa da batalha de Ásculo, em 279 a.C., que venceu com grandes perdas de homens. De tal maneira foi uma batalha equilibrada que, apesar de ganha, o nome do rei que comandava as tropas, Pirro, passou a associar-se a uma vitória pouco significativa, com tantos custos que se aproxima de uma derrota. Ou, pelo menos, um triunfo de sabor amargo.

Serve esta introdução para falar nas eleições europeias. Dirão alguns que já lá vão e não faz sentido voltar a falar no assunto, mas a verdade é que os resultados têm servido tantas análises e estratégias que se estendem para as autárquicas e legislativas, como se as europeias fossem apenas um referendo ao desempenho do governo em funções, que faz sentido voltar a falar nelas.

Vou ser clara, o PS perdeu as eleições de forma inequívoca e os resultados devem obrigar a uma análise profunda das causas que o determinaram e a um olhar crítico ao desempenho do governo.O facto, sustentado nas elevadas taxas de abstenção, é que os eleitores tendem desvalorizar as eleições europeias. E sim, é verdade, infelizmente tendem a olhá-las como um referendo ao comportamento do governo em funções. Mas, julgo que o PSD, que ganhou as eleições, devia ter o discernimento de não confundir esse facto com uma adesão às suas propostas. Ou seja, não me parece que, porque o partido mais votado foi o PSD e, note-se, teve o segundo pior resultado em termos absolutos da sua história, possa com segurança dizer que o eleitorado se identifica com as suas propostas, ou até que se prepara para votar nelas nas eleições que se aproximam.

Claro que já perceberam por que mencionei Pirro no início desta crónica. A vitória do PSD, a que não retiro nenhum mérito, e pela qual lhe dou os meus parabéns, é uma vitória de Pirro. Porquê? Volto a insistir que foi o segundo pior resultado de sempre do PSD. Mais, o PSD já perdeu eleições europeias, em 1994 e em 2004, em que teve votações superiores às que recebeu, agora, em 2009. Por isso, parece-me exagerado que os líderes do PSD se imaginem já a governar o país depois das próximas legislativas. Talvez conviesse esperar pelas eleições que aí vêm. E desconfio que a Drª Manuela Ferreira Leite teria mais hipóteses de as ganhar se tivesse ao menos a lucidez de Pirro, que, ao ganhar a batalha que o deixaria para a história, disse: “Mais uma vitória destas e estou perdido”.

Nós e os políticos.


Atribui-se aos políticos grande parte dos males deste país, desde o uso de dinheiros públicos em proveito próprio, à fuga aos impostos ou o tráfico de influência, e a lista podia continuar sem fim. Não há conversas de café que não o confirmem, daquelas em que se acusa de imoralidade um ministro, por se permitir usar um avião ou um carro do Estado para fazer deslocações pessoais.

No entanto, tendemos a esquecer os telefonemas que fazemos, no trabalho, para o filho, ou as fotocópias de um livro, que tirámos no serviço, para o neto universitário. Já todos ouvimos falar de alguém, que não é político, usar em proveito próprio recursos do local em que trabalha, sem lhe prestarmos grande atenção. Mas indignamo-nos, e bem, quando um ministro faz o mesmo.

Quando fazemos acusações entre amigos contra a fuga de impostos de um deputado, porque não pagou a SISA do apartamento, nunca nos lembramos daquela vez em que o canalizador foi lá a casa e nos sugeriu pagar com recibo e aumentar o valor na factura, ou esquecer o recibo e ter direito a um preço mais em conta. Resultado: acabámos por ignorar a factura para poder pagar menos. Não recordamos, ou fazemos por isso, aquelas facturazinhas de restaurantes que um amigo nos pediu que lhe déssemos para poder descontar no IRS. Quantas pessoas conhecemos que fogem ao fisco? Não serão poucas. Mas sentimo-nos ultrajados, e bem, quando um deputado faz o mesmo.

Quando culpamos a classe política por tráfico de influência, nem nos ocorre a prática corrente de pedir a um conhecido ou a um amigo, com uma posição privilegiada numa determinada empresa ou no Estado, para arranjar ao sobrinho um emprego. Mas enfurecemo-nos, e bem, quando alguém na classe política é acusado de ter usado o cargo para que foi eleito para esse mesmo efeito.

Os homens e as mulheres que fazem política não são nem melhores nem piores do que o resto da população. Não são mais íntegros e mais honestos. Mas também não são mais desonestos e oportunistas que todos nós. E se, de entre todos aqueles que me estão a ler, houver alguns que podem, sem hesitação, afirmar que a sua seriedade e isenção são exemplares, e não duvido que haverá, então nesse caso o vosso lugar é na política activa. É de políticos assim que este país precisa. Mas, mais ainda, Portugal precisa que cada um, e não só os políticos, assumam as suas responsabilidades. Se isso acontecer, tenho a certeza de que muito dos males deste país se vão resolver.