terça-feira, 21 de julho de 2009

A dignidade do Parlamento


Fiquei surpreendida com o gesto que acabou por transformar Manuel Pinho em ex-ministro da economia. E compreendo o sentimento de indignação e repúdio que os parlamentares e outras figuras públicas, da política e não só, têm demonstrado desde então.

Dito isto, gostaria de chamar a atenção para a desproporção entre a gravidade do seu gesto, inequívoca, e a cobertura noticiosa que mereceu. Ora a pergunta que faço é, e se as câmaras não tivessem apanhado o gesto de Pinho em directo? Provavelmente teríamos na mesma um comportamento reprovável, que mereceria repúdio, mas duvido que fosse amplificado da maneira que foi, eclipsando por completo o debate do estado da nação e todo a discussão política subsequente em Portugal.

Julgo que devíamos reflectir sobre a forma como o tratamento jornalístico do caso Manuel Pinho permitiu que as questões sobre as obras públicas, o apoio às pequenas e médias empresas ou os 132 trabalhadores das minas de Aljustrel, para dar apenas alguns exemplos, passassem a detalhes pouco importantes do estado da nação. O gesto infeliz de Manuel Pinho mereceu destaque e análise em todos os jornais e televisão, como se mais nada se tivesse passado no país. De tal maneira que todo o seu trabalho, como ministro da economia, com o qual se pode legitimamente discordar, passou a ser julgado por apenas dois segundos no parlamento, o que me parece de uma grande injustiça.

Mas pior ainda, o que estes acontecimentos mostram é um grande número de pessoas pronto a fixar-se no acessório, por mais relevante que seja, para esquecer o essencial. Ora, depois de ter ouvido tantos falar no atentado à dignidade do parlamento cometido por Pinho, gostaria de dizer que, o atentado que me incomoda verdadeiramente, não é o que decorre de excessos de linguagem, verbais ou outros, é a facilidade com que se ignoram os problemas do país, essa sim, a verdadeira ofensa à dignidade do parlamento.

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